Pastor Alemão - Uma lembrança de carinho com breve final
| Rin-tin-tin - O primeiro cão a fazer sucesso no cinema foi um pastor alemão, em filmes mudos, entre 1920 e 1930 |
Cenário
Na postagem anterior, quando falei da situação dos vira-latas e de como era dura a vida do cão no início dos anos 1970, tive o objetivo de introduzir a forma que começou a minha história com o pastor alemão.
Nessa época, a raça era a mais famosa, tanto quanto são hoje os Shih Tzu, para quem prefere cães pequenos, ou os Golden Retrievers, para quem gosta de grandes.
Uma fama que deve ter sido gerada com o sucesso que fazia o Lobo, fiel companheiro do Vigilante Rodoviário. Também tinha um tal de Rin-Tin-Tin.
| Lobo e Inspetor Carlos - série Vigilante Rodoviário produzida no Brasil em 1961 |
Não havia criação e comércio de cães, com documentação e comprovação de boa genética, como um pedigree.
Cães de raça eram como os vira-latas.
Nasciam em cruzamentos domésticos e estavam longe de ter o conforto e o bom tratamento que os pets conquistaram atualmente.
Tirando os cães treinados pelas forças militares, não havia a prática do adestramento para o convívio familiar.
Qualquer tentativa de impor um comportamento era feita na base do açoite e do enforcamento.
Geralmente ficavam confinados no quintal, presos perto de uma casinha de madeira, com comida e água às moscas.
Sempre temidos.
Dalila
Qual é a sua primeira memória de infância?
Na média, as pessoas conseguem ter lembranças a partir dos três anos de idade, ainda que existam os que consigam registrar episódios que aconteceram quando tinham um ou dois anos, quase sempre relacionados à convivência com a mãe.
A minha primeira memória registra a visita que fizemos para escolher um filhote de pastor alemão, quando tinha três anos.
Depois, com a nitidez de quem se lembra do que acabou de comer, tenho a imagem daquele filhote preto, com manchas caramelo, bem gordinho, correndo atrás de mim e mordiscando minhas pernas, o que era muito divertido, ainda que dolorido.
A Dalila era uma legítima representante da raça. Linda forte e inteligente.
Era filha de uma ninhada dos pastores dos Sr. Hans, um alemão que frequentava o pequeno comércio do meu pai.
Todos os dias, encostava a barriga no balcão e fazia um sinal para o seu pedido favorito: soda limonada da Antárctica com limão espremido no copo. Não aceitava o refrigerante de outra marca.
Era um homem enorme. Alto e careca, com olhos azuis que brilhavam no rosto redondo e vermelho, molhado de suor.
Uma combinação de cores que melhorava o seu jeito bruto. Falava alto, de uma forma assustadora, pelo menos comigo.
Hoje percebo que era só para rir do jeito que eu tremia com a sua presença.
Com meus pais, era de uma enorme simpatia.
Anos depois, soube que o Sr. Hans era um imigrante alemão que trabalhava como mecânico de navios.
Chegou a montar um enorme motor de embarcação no seu quintal e, quando ligou para testar, causou um terremoto na vizinhança.
Mas a história é com a Dalila, por isso vamos deixar o Sr. Hans com o seu motor.
Como todo filhote de pastor alemão, a Dalila crescia rápido.
E da mesma forma que eram tratados os cães naquela época, acabou presa no quintal, ao lado de uma casinha de madeira, assustando quem passasse por perto.
Dentes afiados que não se mostravam quando eu chegava perto. Carinhosa.
Mesmo gigante para um menino de três ou quatro anos, me acolhia e deixava que eu entrasse na sua casinha, para deitar e adormecer ao seu lado, sentindo aquele cheiro gostoso de cachorro e madeira molhada.
Conflito
O problema é que meus pais não tinham como perceber todo o carinho da Dalila e nem cabiam na sua casinha para serem acolhidos por ela.
Como todo bicho cheio de energia para o trabalho, ela não se conformava com o abandono e arrumava o que fazer.
Descobriu que as roupas no varal podiam ser uma boa brincadeira.
Lembro do seu ataque aos lençóis brancos pendurados. Pulos enormes, para puxar o tecido com toda a força.
Uma cena linda, com os lençóis brancos ao vento, atacados por dentes brancos e focinho preto, sob um céu azul.
Doma
Para tentar uma solução para o problema, apareceu um “adestrador”.
Não quero dizer o que penso de pessoas que se propõe a fazer algo que não sabem, mas também não posso julgar como era a forma de atuar naquela época.
A cena foi macabra.
O sujeito enforcou a cachorra com um cambão e começou a tortura, forçando movimentos que ela teimava em não aceitar, por isso aumentava o castigo.
Ele deve ter cansado antes dela.
Devolveu dizendo que era indomável e nunca mais apareceu.
Despedida
Mesmo com as broncas e tentativas de correção, a destruição se repetiu por mais algumas vezes, o que foi suficiente para minha mãe decretar a expulsão do nosso cachorro.
Foi uma choradeira quando vi a Dalila sendo levada em uma carroça, por um homem que dizia morar em um sítio.
Tempos depois, esse roceiro apareceu dizendo que a Dalila havia escapado.
Era tão forte que quebrou a corrente e desapareceu.
Ainda sofro de imaginar o destino que ela teve.
O que ficou
A Dalila deixou em mim tanta saudade que a vontade de ter um pastor alemão permaneceu, como uma semente que espera o tempo certo para germinar.
O tempo foi passando rapidamente. Infância, adolescência, responsabilidades e compromissos, até bater uma vontade tremenda de reencontrar um pastor alemão, por isso, volto depois para continuar essa história.
Comentários
Postar um comentário