A vida de cachorro era dura

fonte: https://www.ejavusp.com/post/a-carrocinha-ainda-existe

Alguns termos e expressões são comuns e resistem ao tempo, mesmo depois de desaparecer o contexto da época em que foram criados. 

Isso vale não só para “vira-lata”, mas também para “parece disco arranhado”, “caiu a ficha”, “passou um branquinho na história”, “tem a cabeça fora de sintonia”, entre outras tantas que só fazem sentido para quem nasceu antes da maioria. 

Tenho memórias do início dos anos 1970, ou seja, uma distância de meio século, bem mais tempo do que gostaria, mas apesar de me lembrar que tenho menos tempo para viver do que já vivi, não deixo de gostar dessas lembranças, ainda mais porque consigo comparar com o comportamento atual e perceber o quanto evoluímos. 

Naqueles dias, o lixo das casas era depositado em latas grandes, que eram viradas pelos lixeiros no caminhão. Ao despejar, os homens batiam as latas na beirada da caçamba, para tirar o máximo de material, por isso essas latas eram sempre sujas e amassadas, nada parecidas com os ícones conhecidos. 

O que tinha no lixo? 

A maioria das pessoas cozinhava a sua comida. Acredito que não existiam alimentos congelados ou prontos, mas se existiam, eram inacessíveis.  

Só os mais ricos descartavam as embalagens vazias. Potes de margarida ou latas ainda tinham serventia, podiam virar brinquedos e vasos de plantas. 

O lixo era essencialmente formado por material orgânico, como cascas de legumes, cascas de ovos, ossos roídos, aparas de gordura de carne ou tripas de peixe. 

Não havia tanta fartura. Os pais ficavam irritados com as crianças que deixavam as sobras no prato. 

Coleta

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Como a coleta não era constante, a lata de lixo ficava no quintal, recebendo a visita de moscas, enquanto iniciava o processo de decomposição. 

Os lixeiros da época eram homens fortes, que erguiam sobre a cabeça as latas pesadas, para escorrer no alto da caçamba um caldo escuro e fedorento. 

Verdadeiros heróis, mas ninguém invejava. Isso pouco mudou de lá para cá. 

Os cães soltos 

O conceito de cão abandonado não era claro. Os cães viviam soltos nas ruas, mesmo que tivessem donos. Tutor de pet simplesmente não existia. 

Esses cães tinham a genética misturada, mas é bem possível que tivessem um parentesco mais próximo dos pastores alemães, porque essa era a raça preferida dos que cresceram assistindo Rin-tin-tin no cinema e na TV, sem cores. 

Por isso, geralmente eram cães com diferentes padrões de pelagem, mas sempre com porte que variava de médio a grande, muito inteligentes. 

A rua era fonte de comida 

Com pouca comida disponível, os cachorros viviam das sobras domésticas, que eram escassas. 

Daí, não era difícil escapar dos quintais para buscar mais alimento nas ruas. 

Diante de uma lata de lixo, apesar de grande e pesada, era fácil virar para espalhar o conteúdo e escolher o que fosse aproveitável. 

O xô da vassoura 

Irritadas com a sujeira na porta de casa, as mulheres faziam plantão até a passagem do lixeiro, para espantar os cães que se atreviam a atacar suas latas. 

Faziam até uma análise de risco. Se o lixo tivesse restos de carne ou peixe, maior seria a chance de um ataque, o que aumentava a vigilância, um trabalho que também era repassado para as crianças. 

Carrocinha 

fonte: https://www.ejavusp.com/post/a-carrocinha-ainda-existe

Diante desse cenário, com cães grandes soltos, além do enorme risco de uma mordida por um bicho raivoso, doença que vitimou muitas pessoas, o serviço de recolhimento era festejado pela população. 

Quando a carrocinha chegava na rua, instalava-se uma verdadeira caçada. 

Sem maiores pudores, os animais eram enforcados com o cambão e atirados na jaula do caminhão, para serem levados ao abate (eutanásia). 

Viravam matéria prima de sabão. 

A partir de 1973, após os protestos dos infelizes que tinham seus cães capturados, o poder público passou a esperar três dias antes de encerrar a vida dos bichinhos, liberando o cachorro sob o pagamento de uma multa. 

Não é difícil concluir que mesmo com a ciência de que seu cachorro havia sido levado pelo controle de zoonoses, poucas famílias resgatavam seus bichos. 

Cachorro amarrado 

As casas não tinham os quintais fechados com muros altos ou portões intransponíveis, vigiados por câmeras. Ao contrário, os muros eram baixos, assim como os portões. Geralmente, um jardim ocupava a frente da casa, com roseiras cuidadosamente cultivadas. 

Então, o “dono responsável” mantinha o seu cachorro preso com uma corrente nos fundos do terreno, ao lado de uma casinha de madeira, com um pote de água e pouca comida exposta às moscas. 

Até a hora da limpeza, cocô e xixi se acumulavam no limite da corrente, que não era longo. 

Além do tratamento de limpeza e comida, havia pouca interação. O cachorro servia como um alarme, para garantir a segurança da casa. 

Vida de cão 

Então, a expressão “vida de cão” passa a ter sentido, não era fácil. 

Hoje, muita gente preferia ter a vida do cão, com casa, boa comida e assistência médica. 

Reflexo na música

A transformação se percebe nas músicas.  

Na década de 1970, Waldick Soriano fazia sucesso cantando “Eu não sou cachorro não”, com essa introdução:

"Eu não sou cachorro não
Pra viver tão humilhado
Eu não sou cachorro não
Para ser
Tão desprezado"

Anos depois, o sucesso foi o “Rock da Cachorra”, na voz de Eduardo Dussek. 

"Tem muita gente por aí que tá querendo
Levar uma vida de cão
Eu conheço um garotinho que queria ter nascido
Pastor alemão"

É verdade que a vida do cachorro havia melhorado, mas também é verdade que a fome e a miséria humana se impunham de uma forma cruel, o que justificava a letra, que continua atual.

Mesmo assim, talvez hoje um tema musical canino fizesse mais sucesso se fosse parecido com a abertura da TV Colosso, que aliás, não mostrava um vira-lata, só cachorro de raça.


Termo anacrônico

O termo "vira-lata" não condiz com a época atual.

Achou-se por bem utilizar a sigla SRD para definir que o cão não tem raça definida, mas sem a conotação de ser abandonado, solto nas ruas, um risco para a sociedade.

Não gosto de siglas como significantes, soa estranho para um idioma tão bonito como o português, cheio de boas palavras. 

É possível que eu não seja o único a não gostar do novo termo, por isso a insistência no uso do "vira-lata".

Além da falta de poesia, as siglas são criadas por um jeito de pensar, que pode mudar com o tempo. Daí, acrescentam-se letras para aumentar ou reduzir a especificação, parecendo mais uma sopa de letrinhas do que um signo.

Mas isso não é importante. 

Mais do que um termo, é preciso que a sociedade evolua, para que os animais SRD não ganhem as letras mais cruéis, como ST, Sem Tutor.

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